quarta-feira, novembro 24, 2010

Do outro lado do espelho

Tiro a roupa e olho-me ao espelho. Que corpo é este? Não sei. Houve tempos em que o meu corpo era só o meu corpo. Hoje é uma mistura de todos os corpos que já tive e, por isso, não o reconheço.
Mas afinal, penso, não foi o meu corpo que mudou, sendo certo que o meu corpo (também) mudou.
Fui eu que mudei e mudo e mudarei; eu que penso, eu que sinto, eu que acordo a cada dia e reparo que o meu sorriso está diferente, ou que as minhas mãos estão diferentes, ou que a casa já não é a mesma.
No entanto, nunca fui tão feliz por saber tão pouco ...
Porque deste lado do espelho pouca coisa há. Mas alguma coisa se há-de arranjar, por pouco que seja. Um sorriso, um afago, uma luz qualquer, talvez difusa.
Deste lado do espelho as flores dançam e o mar agita-se, levemente.
Deste lado do espelho há um abrigo, um caminho novo por trilhar, uma vida inteira para inventar.
Deste lado do espelho há uma verdade que não magoa, antes ilumina, como a mão tranquila que conduz uma criança ao outro lado da vida.
Deste lado do espelho há a bonomia dos dias perdidos e a nostalgia das noites por haver. Há um espanto original ante a diversidade das coisas e do que nelas e por elas se pensa, se vive, se sente, se imagina, apenas.
Deste lado do espelho há uma travessia renovada, um corpo agitado à procura do silêncio primordial que apazigua o seu inexorável desassossego.
Deste lado do espelho há uma espiral de cores e de sons, de palavras e de traços incertos, artisticamente redimidos na firmeza do instante.
Deste lado do espelho fica aquilo que tu procuras, mas não sabes definir. O palpitar doce e suave do coração, a claridade licorosa dos olhos e a abertura amigável que o sorriso rasga, renova e oferece.
Deste lado do espelho há uma criança que brinca nos jardins da imaginação, uma mulher que aprendeu a doar e um ser humano que se arrependeu da irracionalidade intempestiva dos seus medos.
Deste lado do espelho há uma brisa que te acaricia a face como um beijo improvável numa noite fria. Uma lua que se derrama num céu de estrelas e a paleta ainda intacta do pintor desconhecido.
Deste lado do espelho há um sonho ancestral que ficou por cumprir. Uma mão aberta à ternura que passa e se demora e aprende a ficar.
Deste lado do espelho está aquilo que somos e nos ajudaram a esquecer em falsos trejeitos de memória.
Deste lado do espelho há fragilidades de infância que desabrocham em peitos desencantados.
Deste lado do espelho há um caminho, um sonho, uma vida. E a certeza do tempo (des)reencontrado.


Picasso-  Mulher em frente ao espelho - 1932






2 comentários:

João disse...

**da-se!!!!!!
não tenho palavras para "isto"!

nina disse...

Mas porquê?! :)