quinta-feira, dezembro 09, 2010

Remexendo no baú

Um desejo irreprimível, que não se concretiza.Uma atracção que não explico. Fico com as mãos suadas, faces coradas, lábios quentes, tremo.
Olho para ti como para uma figura de cera. Sorris, como estátua perfeita que entrou de mansinho nos meus sonhos.
Murmuraste a tua fascinação, não acreditei, sou demasiado banal para estimular ou encantar quem quer que seja.
Defendi-me de ti, com ironia trocista, confiando na minha intuição que me dizia que tudo não passava de um equívoco, mas fico desconcertada.
Sorriste, com esse tão teu sorriso triste, escreveste, telefonaste com respeito, subtileza, com classe.
Dizes-te tímido, eu não acredito. Trazes nos olhos o desespero e na boca um traço de solidão (tal como eu)
Transportas contigo uma força invulgar que me faz sentir serena.
Quando estamos juntos é como se estivessemos num bosque sagrado, rasgando o silêncio, com a segurança de quem aferrolha uma paixão calada, condenada ao isolamento.
Eu vagueio, recuo por pudor, temendo a surpresa, enquanto vejo as horas passarem até que o dia rompa a penumbra do quarto triste. Sinto que já não sou dona de mim, quando anseio ouvir a tua voz quente, grave, modelada, sensual.
Tu tens uma vida estável, sem sobressaltos, como eu tinha, até sentir por ti uma extraordinária mistura de emoção física, desejo e até identificação de espírito.
Conhecemo-nos há 1 ano, mas parece que foi há mais tempo, mas está posta da parte de ambos, qualquer decisão que possa afectar o futuro. Contigo, homem de nome vulgar, sinto-me bem, embora tenha a sensação, que me possas pedir algo, que não te posso dar.
Tomámos café juntos. Apenas sorvi o afecto quente e doce de um só trago em chávena de porcelana. Uma corrente de sentimentos intensos e contraditórios, estabeleceram-se entre medos e verdades, mexidas com um pauzinho de canela.
Eu não quero entender que me tenho colocado em posições falsas para escapar às censuras e paixões.Tu abalaste o meu desejo egoísta de uma vida tranquila
Visto da minha janela molhada pela humidade Outonal, o dia ameaça raiar.
Tu não sabes, mas estou a falsear o jogo, um perigoso jogo de sedução, que não pode ser mais do que isso.
Toquei-te ao de leve na mão e percebi que já não és para mim uma estátua morta, mas uma estátua de sal, sangue e vida.
Gostaria de caminhar contigo à beira mar, à beira rio, como dois adolescentes irrequietos, rindo de tudo e nada, ou apenas dar-te a mão como fazem os amantes antigos, no silêncio das palavras.
Tu ousaste! Sonhaste beijar-me ao de leve e confessaste, eu corei, por constrangimento ou mesmo inexperiência; sem dissimular o que me vai na alma.
Contigo sinto-me estranhamente calma. Não te peço nada, tu também não.
Recordo agora as tuas palavras carinhosas, és quase um desconhecido ainda, mas acho-te encantador, discreto, perspicaz, sensível, bem formado.
Vejo-te para a semana (se der...)
Talvez tu já não me aches graça nenhuma, agora que me conheces sem a máscara do mistério, sinto-me insegura.
Tenho vontade de partir, para longe dos meus fantasmas, quero sair do escuro desta alvorada. Quero lançar-me de cabeça erguida no vento e na água. Com as mãos rasgar nuvens e memórias. Queria estar contigo por uma hora apenas, vestida de sonhos e segredos transparentes.
Deixo que caia uma lágrima, única e perfeita como uma pérola.
Acabo esta carta que nunca ousarei enviar, mandando-te ternamente um beijo do tamanho da Lua; daquela lua a que chamas Poesia!

Coimbra, 05/11/04


PS: Por muitos anos que passem continuo assim... ainda... demasiado banal para estimular ou encantar quem quer que seja .... ingénua, humilde, teimosa e demasiado distraída ... continuo a defender-me de mim e dos outros, com ironia trocista, confiando na minha intuição que me diz que afinal tudo não passa de um enorme equívoco! ... Continuo a saborear o afecto quente e doce de uma só chavena de café, remexendo com a colher uma corrente de sentimentos intensos e contraditórios, a estabeleceram-se entre medos e verdades, mas com muita cautela. Continuo vestida de sonhos, rasgados de uma pretensa (trans)aparência... A anormalidade é lixada!!! Tudo em mim é desacordo.O que sou e o que faço, o que queria fazer e o que vou fazendo. As minhas próprias ambições se contradizem. Quero viver no Céu, mas mergulhar nas profundezas do mar. É difícil! Sinto-me violentamente puxada, para um lado e para outro, estilhaçada sem poder decidir. Quero viver tudo, mau ou bom, pouco importa; Quero experimentar tudo o que faz bem, como o que faz mal. Haverá algo mais frágil e mais sagrado que a vida? Aceitar que é assim, é aceitar o desacordo. Se não fosse assim, eu seria apenas uma coisa com contornos, peso e medida... Seria como este sofá onde me sento; e não é possível a um sofá sentar-se num sofá ...

3 comentários:

João disse...

gostei muito Nina. Gostei muito. mesmo muito.

Thays de Liz disse...

Incrível como você vai fundo nos sentimentos. Compartilho do desejo de ser mais. Querer mais. Querer tudo. Querer viver o que há pra ser vivido, não me contento com pouco ou nada. Quero me jogar de um abismo e em queda livre aproveitar toda a sensação do voo, sem receio algum de me estabacar no chão... sem medos, só assumindo que a responsabilidade do pulo é minha, só minha e de mais ninguém.
Parabéns!!!!

nina disse...

Thays eu também sou assim de tudo ou nada, de 8 ou 80!!!